Restory: Meu novo jogo conforto que nem saiu ainda

Um jogo novo sobre reparar eletrônicos no Japão dos anos 2000. Uma receita pronta para o sucesso.

De tempos em tempos, surgem jogos que chamam atenção não por grandes explosões, gráficos ultrarrealistas ou sistemas complexos de combate, mas pela proposta simples e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal. Restory é exatamente esse tipo de jogo. Nos últimos dias, ele começou a circular com mais força no X, despertando curiosidade por sua premissa inusitada: administrar uma pequena loja de reparos eletrônicos no Japão, focada em dispositivos dos anos 2000. Para quem tem um carinho especial por tecnologia antiga, videogames retrô e aquela sensação de mexer em aparelhos que já tiveram seus dias de glória, o convite é praticamente irresistível.

Em Restory, assumimos o controle de uma loja de consertos após o desaparecimento misterioso de seu antigo dono. Esse ponto inicial já estabelece um clima curioso, quase melancólico, que acompanha toda a experiência. Não se trata apenas de ganhar dinheiro ou manter o negócio funcionando, mas de entender o que aconteceu antes de chegarmos ali e qual o papel daquele pequeno espaço na vida das pessoas ao redor. O playtest disponível atualmente cobre apenas os primeiros sete dias do jogo, o que limita o escopo da análise, mas ainda assim é tempo suficiente para compreender suas ideias centrais e o tipo de experiência que ele pretende entregar.

Logo nos primeiros dias, o jogador é apresentado à rotina básica da loja. Recebemos aparelhos, diagnosticamos problemas, utilizamos ferramentas específicas para reparo e entregamos os dispositivos consertados aos clientes. O sistema de reparo não é excessivamente complexo, mas exige atenção e cuidado. Cada tipo de aparelho apresenta desafios diferentes, e conforme evoluímos, desbloqueamos novas habilidades e ferramentas que tornam os consertos mais eficientes e precisos. Existe uma progressão clara, que recompensa o aprendizado gradual e evita sobrecarregar o jogador logo de início.

Mas Restory não é apenas um simulador técnico. A alma do jogo está nas pessoas que atravessam a porta da loja todos os dias. Cada cliente chega com uma história, um pedido específico e, muitas vezes, uma carga emocional ligada ao aparelho que precisa de reparo. Alguns buscam recuperar objetos de valor sentimental, outros apenas querem algo funcional novamente, mas todos ajudam a construir uma narrativa fragmentada e cheia de possibilidades. As escolhas feitas durante essas interações influenciam o desenrolar da história, sugerindo múltiplos caminhos e finais diferentes, algo que promete ganhar ainda mais peso conforme o jogo avança além da primeira semana.

Entre todos os dispositivos disponíveis para restauração, os videogames retrô certamente roubam a cena. Restory conta com consoles da Atari oficialmente licenciados, utilizando nomes, formatos e estruturas fielmente recriados. Ver um Atari 2600 ou um controle CX40 aparecer na bancada de reparos desperta uma nostalgia imediata, especialmente para quem cresceu cercado por esse tipo de hardware ou passou horas explorando a história dos videogames. A atenção aos detalhes nesses aparelhos demonstra um cuidado genuíno com a preservação da memória tecnológica, algo que vai além de um simples fan service.

Ainda assim, o jogo não se limita aos videogames. Câmeras fotográficas antigas, celulares do início dos anos 2000, lanternas e outros dispositivos completam o catálogo de reparos. Muitos desses objetos remetem a uma época em que a tecnologia era mais tangível, menos descartável e, de certa forma, mais pessoal. Restory captura muito bem essa sensação, fazendo com que cada conserto pareça um pequeno resgate do passado.

A direção de arte é outro ponto forte do jogo. Embora não adote um estilo totalmente cartunesco, Restory apresenta uma estética suave, com personagens expressivos e cenários que passam uma clara influência de animes e dramas japoneses slice of life. A loja, as ruas ao redor e os interiores visitados criam uma atmosfera acolhedora e intimista. Tudo é pensado para transmitir tranquilidade, quase como um convite para desacelerar em meio a um mercado saturado de experiências intensas e aceleradas.

Essa sensação de calma é reforçada pela trilha sonora e pelo ritmo geral do jogo. O foco está no processo, na repetição confortável da rotina e na observação das pequenas mudanças que acontecem ao longo dos dias. É um jogo que claramente entende o valor do silêncio, dos momentos de pausa e da contemplação, algo cada vez mais raro na indústria.

Narrativamente, Restory ainda guarda muitos mistérios. O desaparecimento do antigo dono da loja funciona como um fio condutor, mas o jogo não se apressa em entregar respostas. Em vez disso, ele constrói sua história aos poucos, através de diálogos, pistas sutis e do envolvimento emocional com os clientes. Esse tipo de narrativa fragmentada combina perfeitamente com a proposta do jogo, reforçando a ideia de que cada aparelho consertado carrega uma história, assim como cada pessoa que cruza nosso caminho.

Claro, por se tratar de um playtest, algumas limitações são evidentes. O conteúdo ainda é restrito, e certas mecânicas parecem promissoras, mas não totalmente desenvolvidas. Ainda assim, a base apresentada é sólida e cheia de personalidade. Restory sabe exatamente que tipo de experiência quer oferecer e não tenta ser algo maior do que precisa.

No fim das contas, Restory se apresenta como uma experiência profundamente nostálgica, relaxante e humana. É um jogo que fala sobre consertar objetos, mas também sobre reparar memórias, relações e histórias interrompidas pelo tempo. Se os próximos capítulos conseguirem expandir tudo o que já foi apresentado nessa primeira semana, estamos diante de um título que tem grande potencial para se tornar um daqueles jogos pequenos em escala, mas enormes em significado.